quarta-feira, 9 de maio de 2018

A ALEMANHA GANHA PELA EXTORSÃO DA GRÉCIA


Por Vladimiro Giacché
(em artigo no jornal Junge Welt, edição de 03/05/2018)
Traduzido por Francisco José dos Santos Braga



Desde o início da crise, "as más notícias na Grécia eram boas notícias para a Alemanha. Toda referência negativa às evoluções econômicas em Atenas resultava analogamente em taxas de juros mais baixas para títulos do governo alemão. Ao contrário, as taxas de juros da Grécia e de outros países em crise sofriam aumento".

Isso foi escrito num artigo no jornal Junge Welt pelo economista alemão Vladimiro Giacché e membro do Instituto de Pesquisa Econômica Centro Europa Ricerche (CER) em Roma.

"O resultado foi tão favorável ao Tesouro alemão, a ponto de, mesmo no eventual caso de uma falência total da Grécia, o resultado líquido para a Alemanha seria positivo", acrescenta o economista alemão, derrubando a lenda de que os contribuintes alemães supostamente pagariam a crise no Sul da Europa.

Na Grécia, há pessoas que precisam procurar no lixo para poderem sobreviver. Quem critica a extorsão do País é considerado "populista" (Atenas, 24/06/2012) - Crédito pela foto: Pascal Rossignol/REUTERS

Críticos da ordem neoliberal na União Europeia são frequentemente chamados de ‘populistas’. Tomemos, por exemplo, a política de juro zero e o programa de compra de títulos do governo conhecido por Flexibilização Quantitativa (Quantitative Easing - QE) do Banco Central Europeu (BCE). Quantas vezes ouvimos dizer que isso é um presente para os do Sul e um roubo à custa do contribuinte alemão? Quantas vezes foi feita essa acusação ao presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, a fim de reafirmar a necessidade de aumentar o juro e rapidamente pôr fim à flexibilização quantitativa (QE)?

O poupador alemão

Bem, a realidade é outra. "No Instituto de Pesquisa Econômica Centro Europa Ricerche (CER) em Roma, realizamos uma investigação simples em janeiro. Dizia respeito ao cálculo da diferença entre as taxas de juros efetivamente pagas pelos Estados europeus pela sua dívida pública no período 2007-2017 e o montante total que teriam pago, caso as taxas de juros dos títulos nacionais tivessem permanecido constantes, ao nível de 2006 (França 3,9%, Alemanha 4,1%, Itália 4,4%), também nos anos seguintes. Resultado: a Alemanha foi a que mais economizou juros (280 bilhões de euros). Seguem a França (230 bilhões de euros) e a Itália (140 bilhões de euros). A poupança total para a zona do euro é considerável: 950 bilhões de euros. Mas, com mais de 70% deste montante (cerca de 690 bilhões de euros) se beneficiou o chamado núcleo da Europa, enquanto os países periféricos, os chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), se beneficiaram com menos de 30% da poupança (cerca de 260 bilhões de euros)", destaca Giacché.

A confirmação oficial deste resultado veio em 23 de abril, quando o jornal Handelsblatt publicou o conteúdo de uma resposta escrita da secretária de finanças Bettina Hagedorn (SPD) a uma consulta do político Verde Sven-Christian Kindler, responsável pelas questões orçamentárias. Ainda por cima, o Wirtschaftszeitung publicou “novos dados do Banco Central da Alemanha”. De acordo com seus cálculos, o total acumulado de economias da união monetária aumentou cumulativamente entre 2008 e 2017 para cerca de 1,15 trilhão de euros, montante ainda superior ao calculado pelo Centro Europa Ricerche / CER (possivelmente devido aos diferentes períodos considerados). Mas isso não muda o fato principal: a Alemanha se beneficiou mais da flexibilização de juros, com uma economia acumulada de 294,1 bilhões de euros.

Más notícias são boas notícias

Por detrás desse número não está apenas a política monetária extremamente frouxa do BCE. A história começa mais cedo: com a crise grega. Em 10 de agosto de 2015, o Instituto para Pesquisas Econômicas Leibniz da cidade de Halle (IWH) tinha apontado num parecer de pesquisa que os programas de crédito de 2010 resultaram em um corte significativo nas taxas de juros para o orçamento público alemão. Entre outras coisas, isso aconteceu porque os investidores fugiram para títulos seguros, os chamados "voo para qualidade".

Os pesquisadores do IWH afirmaram: “Más notícias na Grécia eram boas notícias para a Alemanha.” Cada notícia negativa sobre a evolução econômica de Atenas resultou em taxas de juros mais baixas para os títulos do governo alemão, enquanto, ao contrário, eram aumentadas as taxas de juros dos títulos da Grécia e de outros países em crise. O resultado foi tão favorável para os cofres públicos alemães que, mesmo na eventualidade de uma falência total da Grécia, o resultado líquido para a Alemanha teria sido positivo.

O programa QE do BCE foi lançado em 2013 e foi concebido para salvar o euro. Quanto a isso, Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão para Pesquisa Econômica (DIW) de Berlim, está certo: "os governos federal, estadual e municipal - e, portanto, os contribuintes também - são os grandes ganhadores das baixas taxas de juros".

A Alemanha foi a mais favorecida, porque os títulos do governo da República Federal da Alemanha foram os mais comprados pelo BCE.

Infelizmente, a ideologia do "zero negro" operada pelo ex-Ministro da Fazenda Wolfgang Schäuble (CDU) - e agora aparentemente confirmada por seu sucessor, Olaf Scholz (SPD) - até agora impediu que esse montante considerável fosse aplicado em gastos sociais e investimento em infra-estrutura.

No entanto, isso é bastante consistente com a estratégia de longo prazo da classe dominante alemã, que insiste em um modelo de exportação baseado na deflação salarial. É o custo dessa política que a maioria dos contribuintes alemães deve, de fato, suportar.

Fonte (em grego): https://kostasxan.blogspot.com.br/2018/05/junge-welt-junge-welt.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+blogspot/vhzE+(Ας+μιλήσουμε+επιτέλους!)

Fonte (em alemão)
https://www.jungewelt.de/artikel/331848.zinsgewinn-dank-euro-krise.html?sstr=Griechenland