domingo, 18 de fevereiro de 2018

FORMEMOS UM FUTURO GREGO, E NÃO COM AS MENTIRAS DO MULTICULTURALISMO


Por Sarántos Kargákos
Traduzido e comentado por Francisco José dos Santos Braga 

(Resumo da entrevista concedida pelo conhecido historiador e escritor sr. Sarántos Kargákos à sra. Fotiní Mastroiánni, no programa "Pegue o dinheiro e corra" de 26 de março de 2016)


De acordo com o sr. Kargákos, os erros do presente não devem ser imputados a erros passados que tenham acontecido sob certas circunstâncias e sob necessidades extremas. Os empréstimos que o novo governo grego tinha tomado foram predatórios, mas eram necessários para lidar com as condições difíceis que a Revolução ¹  enfrentava.

Com a eleição correta de Kapodístria, vencemos uma batalha diplomática e a libertação de Rumélia ². O assassinato "inesperado" de Kapodístria não permitiu que seu trabalho fosse completado. De lá, passamos a uma fase de anomalia e as Grandes Potências nos enviaram Oto como rei. Nos anos de seu reinado, a Grécia, limitada em extensão, começa a se formar um Estado, a capital a tomar uma forma com edifícios que até hoje permanecem decorações.

As pessoas que iniciaram a Revolução não tinham qualificações: a maioria era analfabeta, (constituída de) pessoas rudes, mas na luta alguns deles se tornaram também santos. No entanto, a massa política que se formou naquela época não era desprezível, porque imediatamente nos movemos para nos organizarmos em um Estado político, democrático e liberal.

A primeira Constituição Grega de Epidauro, que foi votada em 1º de janeiro de 1822 era a Constituição mais democrática que existia então na Europa. De acordo com ela, o poder emana do povo e possuímos uma concepção democrática que não havia em nenhum outro Estado naquela época. É tocante ler na 1ª Constituição que na Grécia nenhuma pessoa é vendida nem comprada, que são proibidas as torturas, que é interdito confisco de propriedade, etc. Naquela época, nem na França, nem na Rússia, muito menos nos Estados Unidos tinha sido abolida a escravidão. A terceira Constituição, a Constituição de Troezen, era a mais democrática que tinha sido votada naqueles anos.

A história, não a aprendemos para conhecer o passado; estudamo-la para conhecermos o futuro. O ruim é que para os Gregos vale o que disse Hegel: "A única coisa que a história (nos) ensina é que não ensina nada." Só nós, os Gregos, enquanto temos escrito uma história tão brilhante, não aprendemos com os sofrimentos do passado, reiteramos os erros e não repetimos os grandes feitos daquela época. Mas, sempre que havia uma liderança inspirada e uma solidariedade ³, foram realizados prodígios militares e políticos.

Os anos 1940/41 e a epopeia da Resistência mostram que dentro de nós existem forças que nos permitem termos uma presença notável no mundo, mas infelizmente o que prevalece mais em nós é o espírito da discórdia.

Dentro do contexto educacional, cresce um tipo de inveja entre os Gregos. Não existe competição, mas miramos quem vai derrubar o outro. 

Típica é a situação política atual. É somente no nosso tempo que os políticos entram na arena política mais pobres e a deixam mais ricos. Não temos cultura política em nosso país; a vida política acha-se em putrefação, o que requer uma mudança de mentalidade não só de políticos, mas também de cidadãos comuns. Somos ingratos às pessoas que criaram esse Estado.

A Europa, por outro lado, não nos ofereceu aquilo que Constantino Karamanlís havia prometido, isto é, que protegeria nossas fronteiras. A prova é não só o incidente da Crise dos Imía (1996), mas também os trágicos acontecimentos do presente. 

A Alemanha, durante a Ocupação, tinha formado campos de concentração. A maioria deles estava em países estrangeiros: Auschwitz estava na Polônia. Agora, os campos de concentração, sob a responsabilidade da Alemanha, estarão na Grécia. Logo, a imprensa internacional falará sobre o Dachau da Grécia, como se fôssemos nós os que criaram essa triste situação.

Este ano, o turismo será afetado desesperadamente e podemos ter transmissão de doenças. Toda essa "invasão" na Europa criará fobia e o medo é o fascismo. É possível que a Europa seja dirigida a uma política análoga à de Mussolini, de Franco e de Hitler.

A Grécia sempre foi um braço aberto, mas não pode carregar tanta carga. Neste momento que não pode manter sua própria população, vai sustentar outra população sem mesmo conhecer sua dieta alimentar? Por outro lado, muitos estão vindo com documentos imprecisos: não sabemos quais são Xiitas e quais são Sunitas, e assim por diante. O ódio entre Sunitas e Xiitas é tão profundo que é inimaginável. Vamos ter um campo de concentração para Xiitas e outro para Sunitas?

Existe a possibilidade de acontecer ato terrorista na Grécia com o propósito de chantagear a Europa para aceitar os imigrantes. Isso pode acontecer na abertura da temporada turística com o corte do fluxo turístico.

Além disso, temos uma mudança na nossa vida tradicional. Para podermos, como alguns afirmam, ser multiculturais, precisamos eliminar vários elementos de nossa identidade cultural. Alguns dizem para retirarmos as imagens das nossas escolas, não apenas os ícones de Nossa Senhora e de Cristo, mas também as imagens de Lutadores de 21 , porque os imigrantes vieram de diversos países com os quais nos confrontamos no passado. Devemos, segundo eles, mudar a nossa história, a nossa literatura e, finalmente, moldar um novo tipo de cultura cosmopolita. São essas as mentiras das Mil e Uma Noites que se dizem sobre multiculturalismo. Em nenhum Estado da Europa existe este fenômeno; todos os governos europeus continuam sua própria tradição cultural. Como faremos nós que possuímos a maior tradição cultural? Vamos renegá-la? Mas esse é o nosso maior tesouro.

O primeiro ministro húngaro falou de modo bruto e enérgico que não podem permitir a muçulmanização da Europa. A Grécia não pode enviar imigrantes para crematórios; isso podem fazer a Alemanha que possui tradição correspondente, a França que sabe de massacres na Algéria, a Bélgica que exterminou o melhor contingente do Congo. Todos eles têm enormes responsabilidades perante esses povos, que nós Gregos não inquietamos, como também não o fizemos com os Europeus e Americanos.

O sr. Kargákos pressente um plano diabólico: os gigantes econômicos europeus, não excluindo também os americanos, vendo as conquistas dos trabalhadores, começaram a levar uma grande parte de sua atividade empresarial para a Ásia e a África. Assim começou a cair o padrão de vida da Europa. As empresas querem mão-de-obra barata sem direitos garantidos e assim começou a derrubada de Kadafi e o bombardeio da Líbia.

Os Europeus não estudaram nem o caso da Síria. Lá as pessoas têm uma religiosidade profundíssima que os leva ao fanatismo. Então, de repente, através dessa guerrilha, que era apoiada pelos Europeus e Americanos, surgiu o ISIS. É criado o califado, que é a coisa mais perigosa que foi formada para o futuro europeu. O califado não é um Estado, não tem fronteiras, está onde estão seus crentes. Os crentes devem obedecer absolutamente às ordens do califa. Se um crente recebe a ordem de explodir-se, deve fazê-lo, e em algum local público. Não há mais segurança na Europa e assim se disseminará uma suspeita sobre o próximo. No que se refere ao assunto da segurança, o sr. Avramópoulos disse que em toda a Europa existem 5.000 jihadistas. Pessoas que estão decididas a morrer não enfrentam nada.

A dissolução da Europa está próxima e entraremos no mercantilismo porque cada Estado procurará proteger seus próprios interesses econômicos.

A Europa precisa do potencial populacional dos imigrantes, mas os quer sem direitos, para que assim, em algum momento, possa expulsá-los.

A máfia assumiu o tráfico dos negros da África para a Europa. Os negros não se espalham por toda a Itália, mas ficam na ilha de Lampedusa que tinha sido fortificada por Mussolini, ficam naqueles fortes onde existe uma escolha; os mais robustos estão sendo empurrados em várias direções. A Camorra pega a maioria deles. No entanto, preocupam-se com o fato de a Sicília estar "limpa" de imigrantes, porque buscam a Sicília por ser polo turístico e assim todos quantos quiserem vir à Grécia, tentam dirigir-se para lá.

Nosso sistema político está por se formar tanto histórica, quanto geográfica, mas também politicamente. Correm atrás dos fatos em vez de precedê-los. Deveriam ter recorrido à ONU para ela própria assumir a responsabilidade.

Também devemos nos preocupar com o fato de que os xeiques não promovam seus correligionários. É provável que a Arábia Saudita financie os traficantes de escravos para dirigirem essa gente à Europa, porque, se houvesse crescimento populacional no país, havia a possibilidade de o regime atual ser derrubado.

A Etiópia, um país paupérrimo, não tem fluxos de imigrantes. A razão é que os Etíopes são cristãos coptas e o que interessa a alguns que se acham no espaço do Islam não é que seja impelido um elemento cristão para a Europa, o qual possa ser incorporado, mas haver um elemento muçulmano, o qual não se incorpore a nada, como aliás não foi incorporado por tantos anos o elemento muçulmano da Trácia. Para os muçulmanos não é válida a lei do Estado, mas a do Corão. Essa gente não devia inquietar-se com a forma como fazia o colonialismo. O Islam era uma religião passiva; depois da penetração europeia, os nacionalismos começaram a se desenvolver. A Europa criou as guerras, e não a Grécia. 

Temos que procurar novas pessoas, nova política. Devemos permitir que as pessoas dignas entrem na arena política porque existem muitas sérias, capazes e respeitáveis na nossa pátria que tremem (só de pensar em) entrar no espaço da política, porque têm medo de perder a dignidade.

A Grécia passou por quarenta ondas bárbaras e sempre conseguiu sobreviver; sobreviverá também agora. Basta manter os valores que nos escoraram no passado para sermos dignos de enfrentar o futuro. Formemos um futuro grego e deixemos as mentiras sobre multiculturalismo.

Encerrando, o sr. Kargákos disse estar otimista que as crianças queiram conhecer a cultura antiga, medieval e contemporânea. Querem conhecer seus avós. Essa pequena qualidade basta para este lugar prosseguir na sua missão histórica.




ou http://www.ithesis.gr/politikh/sarantos-kargkakos-na-sximatisoume-ena-mellon-elliniko-oxi-me-ta-paramithia-tis-polilitismikotitas/


AGRADECIMENTO 


Gostaria aqui de consignar meu agradecimento ao Prof. Aléxandros Orfanídis, de Atenas, que teve a gentileza de dar-me a sugestão de traduzir o presente artigo, agregando valor e permanente atualização ao Blog do Braga, em comunhão com a intelectualidade grega. 



NOTAS EXPLICATIVAS 



¹ Veremos sumariamente nesta nota de rodapé algumas semelhanças entre a Grécia e o Brasil no período imperial. 
A Queda de Constantinopla em 1453 e a subsequente queda de Trebizonda e Mitra em 1461 marcaram o fim da soberania grega que perdurou por praticamente quatro séculos, quando o Império Otomano passou a controlar toda a Grécia, com exceção das ilhas jônicas e a península de Mani. Com o crescimento do nacionalismo revolucionário por toda a Europa nos séculos XVIII e XIX, principalmente por força da Revolução Francesa, o poder do Império Otomano foi declinando e o nacionalismo grego começou a afirmar-se. A causa grega começou a obter apoio não apenas dos "filélines" ocidentais europeus (sendo o mais célebre deles o poeta Lord Byron), mas também de muitos mercadores gregos espalhados pela Europa Ocidental e Rússia que prosperaram com a guerra russo-turca (1768-1774) e Tratado de Küçük Kaynarca, que permitiu a navegação dos mercadores gregos sob bandeira russa. O mote "Liberdade ou Morte", utilizado na época da Revolução Grega (ou Guerra da Independência da Grécia, de 1821 a 1829), acabou incrustado nos corações e mentes dos Gregos, rememorando os incontáveis atos de heroísmo e resistência que aconteceram durante as várias revoltas iniciais contra os Turcos otomanos ocorridas em várias décadas do século XIX. O mote foi inserido no DNA cultural, na poesia, na música e na literatura gregas. O aniversário do Dia da Independência (25 de março de 1821) é um feriado nacional comemoradíssimo na Grécia.
Oto Frederico Luís da Baviera (1815-1867) foi escolhido para ser "rei da Grécia" (e não "rei dos Gregos"), título que dava a impressão de que os habitantes da Grécia estavam ainda sob o domínio turco. Ascendendo ao recém-criado trono grego enquanto era menor de idade, seu governo foi inicialmente administrado por um conselho regencial de três homens (von Armansperg, von Abel e von Maurer) composto por oficiais bávaros. Os generais Kolokotrónis e Makrygiannis, heróis e líderes da Revolução Grega, opuseram-se a essa Regência dominada por bávaros, foram acusados de traição, presos e condenados à morte, mas foram absolvidos devido à pressão popular e à posição independente de juízes que resistiram às pressões bávaras e se recusaram a assinar as penas de morte. Quando os regentes bávaros se tornaram impopulares com o povo, principalmente porque criaram uma política controversa de acabar com os mosteiros gregos, Oto retirou os regentes bávaros, ao alcançar sua maioridade (1835), passando a governar como um monarca absoluto. Um dos seus atos iniciais foi a transferência da capital grega, de Náfplio para Atenas com a elaboração de um plano de modernização da cidade: construção dos edifícios da Universidade de Atenas (1837), da Universidade Politécnica (1837), os Jardins Nacionais (1840), a Biblioteca Nacional, o Parlamento grego (1843). Também foram construídos hospitais e escolas em todo o território grego, mas, apesar dessas construções, o sentimento geral da população era negativo para com elas, tendo sido majoritariamente ignoradas.  As políticas gregas da época eram baseadas na aliança com as Grandes Potências e o rei, para manter esse apoio, tinha que jogar com os interesses de cada uma das potências. Em 1843, a população grega estava insatisfeita com o seu rei católico e esse sentimento tinha atingido proporções críticas, exigindo a nomeação de gregos para o Conselho e pressionando para que o rei convocasse uma Assembleia Nacional permanente para votar uma Constituição. A rebelião foi vitoriosa, embora desagradando a esposa do rei, pois foi votada a Constituição de 1843, tendo sido o nome da praça das manifestações alterado para Praça da Constituição e, pela primeira vez, o Conselho do rei passou a ser constituído, além de gregos, de representantes dos principais partidos das Grandes Potências (francês, inglês e russo), concorrendo entre si com igualdade. Quando a Marinha Real Britânica bloqueou a Grécia em 1850 e em 1854 para impedir que os Gregos atacassem o Império Otomano durante a Guerra da Crimeia, a opinião que os Gregos tinham do rei piorou. A Grande Ideia, sonho de unir todas as populações gregas do Império Otomano e assim restaurar o Império Bizantino sob o domínio cristão, levou Oto a considerar a proposta de entrar na Guerra da Crimeia ao lado da Rússia contra a Turquia e seus aliados britânicos e franceses em 1853. Mas a iniciativa não deu certo, resultando numa nova intervenção das Grandes Potências com bloqueio do porto de Piréus, o que forçou a Grécia a permanecer neutra. Em 1861, houve uma tentativa de assassinato da rainha e, por fim, em 1862, Oto foi deposto quando visitava o Peloponeso. Morreu no exílio na Baviera em 1867. Sabe-se que estava apoiando a rebelião de Creta de 1866 contra o Império Otomano, doando-lhe a maior parte de sua fortuna e fornecendo-lhe armas.



²  Rumélia ou Roúmeli: as possessões do Império Otomano na Península Balcânica, incluindo Macedônia, Albânia e Trácia. No período de 1864-66, a Rumélia foi divida em várias províncias menores e uma província autônoma (Rumélia oriental) cedida em 1885 à Bulgária.

³  Ομοψυχία, em grego. 

⁴  Com a denominação de Lutadores e, mais tarde, Lutadores de 21 foram caracterizados todos aqueles ilustres e desconhecidos heróis que tomaram parte da Guerra da Independência Grega de 1821, possibilitando que com seus sacrifícios e esforços a Grécia conquistasse sua liberdade.