domingo, 6 de agosto de 2017

HOMENAGEM A NÍKOS KSYLOÚRIS


Por Francisco José dos Santos Braga

Níkos Ksyloúris (⭐︎Réthymno, Creta, 07/07/1936-✞Piréus, 08/02/1980)



I.  INTRODUÇÃO



"Desde o início desta década, a Grécia se tornou tristemente famosa em razão da intervenção da troika ¹ na autonomia do país, um feito que provocou um cenário de instabilidade social que não se via no território grego desde a ditadura dos coronéis (1967-1974). 

Uma das canções mais populares daquela época e que se converteu em hino da resistência contra o regime fascista grego ficou conhecida como "Ksastéria" (ou Ksasteriá), uma canção do gênero "rizítiko" ² popularizada por dois cretenses: o cantor Níkos Ksyloúris e o compositor Giórgos Markópoulos, e que atualmente volta a se ouvir na maioria das manifestações contra as chamadas medidas de austeridade.

As canções do gênero "rizítiko" são características da ilha de Creta, mais exatamente da província da parte ocidental. Os "rizítika" são cantos monofônicos de tradição oral e de origem pastoril, que se destacam pelo uso da escala pentatônica e por seus versos pentadecassilábicos. Um dos temas mais recorrentes dos "rizítika" são os relacionados com as atividades vinculadas à justiça vingativa, podendo a "vendetta" ser por causa de ovelhas furtadas e honra de mulheres. A canção "Ksastéria", que se pode traduzir como "céu estrelado, sem nuvens", é uma das mais conhecidas.

O fato é que, hoje em dia,  se ensina a dita canção nas escolas gregas como parte da história musical do país, como um dos cantos que melhor expressam o movimento de resistência ao governo (anterior) dirigido por Giórgos Papadópoulos (e, atualmente, por Tsipras), e o significado da letra simples se converteu em canto revolucionário à resistência e à liberdade, e quase ninguém recorda o seu conteúdo semântico original: uma vingança total. O seu uso fez com que a canção sofresse mudança no seu caráter ideológico inicial, ainda que a letra continue tornando evidente aos olhos estrangeiros que neste caso fale de uma "vendetta".

Quiçá os senhores da troika se deem conta daquilo que o povo canta na rua! Teriam maior cuidado na hora de aplicar certas políticas.
" ³

Localizei na Internet, mais exatamente no site http://kriaras.com/wp/, um esclarecimento hermenêutico para essa canção cuja letra e música são tradicionais, que me pareceu verossímil.  Um membro da família cretense Kriarás é o autor do texto em questão, intitulado "Πότε Θα Κάμει Ξαστεριά - επεξήγηση τραγουδιού" (Quando as nuvens desaparecerem - esclarecimento da canção), cujos principais trechos traduzo abaixo. Também não pude deixar de apreciar o comentário do Sr. Evángelos logo após o texto do Sr. Kriarás, em forma de réplica, que o próprio comentarista referenciou como extraído da revista Toque de Clarim Grego, Boletim nº 66 (janeiro de 2007), página 3. Por fim e em modo de tréplica ao comentário do Sr. Evángelos, faz nova aparição o Sr. Kriarás trazendo novos fundamentos para sustentar a sua tese. Inicialmente vejamos o "Esclarecimento da canção", por Sr. Kriarás:


II.  ESCLARECIMENTO  DA  CANÇÃO  TRADICIONAL CRETENSE "Quando as nuvens desaparecerem"
"A canção tem-me ocupado desde criança, em todos os seus pontos e comecei assim a buscar por um sentido lógico para cada fragmento. Preliminarmente, ela mostra de maneira impressionante a fúria e o ódio da guerra. Como a pessoa deixa a sua natureza humana e se aproxima da natureza do animal selvagem. Esta canção, apesar de talvez ninguém ter compreendido até hoje, tornou-se famosa, não só na Grécia mas também no exterior, uma vez que famosos historiadores gregos e estrangeiros se ocuparam dela e com a infrutífera tentativa de sua explicação lógica.
Eis os versos da canção (letra tradicional e música tradicional; conforme interpretação: Níkos Ksyloúris - 1971):
QUANDO AS NUVENS DESAPARECEREM

Quando fizer céu estrelado,
(e) quando chegar fevereiro,

quero pegar minha espingarda, (bis)
(e) a bonita cartucheira,

quero descer até Omalós, (bis)
(e) na estrada a Mousoúri,

quero deixar mães sem filhos, (bis)
(e) mulheres sem maridos,

quero fazer dos bebês crianças, (bis)
(e) a chorarem sem mamães,

Quando as nuvens desaparecerem!!!
 
Eis o vídeo da interpretação do cantor Níkos Ksyloúris para a canção tradicional "Πότε Θα Κάμει Ξαστεριά": 
https://youtu.be/nzSjGLAVQpY ou
https://www.youtube.com/watch?v=nzSjGLAVQpY&feature=youtu.be

Letra conforme seu maior intérprete grego, Níkos Ksyloúris (⭐︎Réthymno, Creta, 07/07/1936 - ✞Piréus, 08/02/1980):
Πότε Θα Κάμει Ξαστεριά

Πότε θα κάμει, πότε θα κάμει ξαστεριά,
(ε) πότε θα φλεβαρίσει, πότε θα φλεβαρίσει,

να πάρω το, να πάρω το ντουφέκι μου, (bis)
(ε) την όμορφη πατρόνα, την όμορφη πατρόνα,

να κατεβώ, να κατεβώ στον Ομαλό, (bis)
(ε) στη στράτα τω Μουσούρω, στη στράτα τω Μουσούρω,

να κάμω μά-, να κάμω μάνες δίχως γιους, (bis)
(ε) γυναίκες δίχως άντρες, γυναίκες δίχως άντρες,
 
να κάμω και, να κάμω και μωρά παιδιά, (bis)
(ε) να κλαιν' δίχως μανάδες, να κλαιν' δίχως μανάδες,

Πότε θα κά-, πότε θα κάμει ξαστεριά!!!

Assustador assim? Esta é bem a fúria da guerra... horrenda. Esclarecimento: να πάρω το ντουφέκι μου, ε την όμορφη πατρόνα (trad. eu quero pegar a minha espingarda, e a bonita cartucheira); frequentemente, aqui na canção, se ouve um  ε antes da "την όμορφη πατρόνα", onde o και (conjunção aditiva e, em português) vira  ε. ατρόνα" é a cartucheira. (O que eu não sei, porém, é quão antigo é o nome 'cartucheira', porque importa, na explicação abaixo que dou à época de Daskalogiánnis, dava-se o nome de πατρόνα ao bornal com a pólvora e as balas, já que em 1770 havia armas com tais munições.)
Na minha opinião - e sempre escrevo e penso com a possibilidade de que posso errar: Lendo recentemente a história de Daskalogiánnis (vergonha para mim ter demorado, mas me consola que muitos que provavelmente tenham também opinião, não a tenham lido, ou pelo menos não a tenham estudado) e a evolução das batalhas, de forma instintiva me veio à mente a canção que absolutamente combinava com as descrições assustadoras que contemplava diante de mim e coloco a canção em fins do verão de 1770. Nesta ocasião o desenvolvimento da luta tinha recrudescido, uma vez que os Turcos já tinham se voltado contra as aldeias dos rebeldes, tendo-as destruído e oprimido, bem como trucidado mulheres e crianças. Os rebeldes se retiraram para as Montanhas Brancas e um seu grupo de elite foi destacado para incursões noturnas. O grupo de elite de Giorgakomárkos, ficou conhecido como Demônios. Eles agiam à noite, utilizavam a luz das estrelas para mover-se pelos montes intransitáveis. Por isso não só a canção diz "quando as nuvens desaparecerem", porque já se encaminhava para o fim do verão - quando as coisas ficaram mais furiosas - mas também as nuvens que apareciam no céu dificultavam a ação daquele grupo, o qual evidentemente nas horas da impaciência pela ação, cantava e planejava a próxima incursão deles. A canção é muito desumana - se alguém a examinar cuidadosamente - dizendo que os guerreiros descem às planícies e atacam quem encontram pela frente.
Agora: por que (a canção) fala de terreno plano? Na minha opinião e fazendo a leitura das descrições analíticas do livro - que eu tentarei postar inteiro no site kriaras.com - os Turcos se estabeleceram em muitos dos locais planos, como turcocretenses - principalmente pastores. Desconheço se no tal terreno plano havia Turcocretenses, mas obviamente alguém não cantaria uma canção escolhendo cada planície que planejasse atacar. A regra geral é que encontravam Turcocretenses em muitas planícies e regiões agrestes fora da província de Sfakiá e o próprio Omalós que está também muito próximo de Chaniá se adequa por ter sido alvo de um dos ataques. Mas esclareço que é muito provável que o cantassem para qualquer localidade plana que atacariam. Mesmo porque isso acontecia repetidamente. Queriam os revoltosos ir de serra em serra e atacar nas planícies, locais planos onde os Turcocretenses possuíam suas moradias e rebanhos. Esta canção claramente guerreira incentivou todos os grupos e logicamente se ampliou a ponto de ser cantada por todos enfim e consequentemente chegar a nossos dias - apesar de toda a sua assustadora selvageria - e ser cantada até mesmo em manifestações pacatas e festivas. Então, os rebeldes pelos intransitáveis e inacessíveis montes planejavam o ataque à planície, assim que o tempo permitisse a incursão noturna. Por isso, precisavam do céu estrelado. ISSO ELUCIDA E É O PONTO-CHAVE PARA TODA A CANÇÃO.
É muito relevante compreender-se a importância da posição de cada sentença na canção. Por exemplo, a qual de nós que compusemos nossas próprias mantinádas - e creio que serão muitos dos que leem este texto e me alegro - sabemos que muito frequentemente temos no início a nossa base e depois procuramos palavras para descrevermos o assunto. Se, de vez em quando, não encontramos a palavra certa, colocamos uma aproximada, mas isso nunca fiz no início. Ou seja, se houver ocasião de ter determinada palavra aproximada no meio dos versos, não acredito que ela esteja no começo. Portanto, considero um dado: a expectativa do tempo oportuno nunca cooperará para o movimento da batalha à noite. Por toda a trama da canção, esta também parece ser um produto coletivo. Isto é, não se dirige contra alguém, mas contra muitos desconhecidos. Esses considero os pontos-chave da canção, que penso tenham pelo menos uma base, se não estiver certa a sua real interpretação. Provavelmente porque eram tão eficientes esses ataques noturnos para os rebeldes avançarem cada vez mais longe, é que esta canção se expandiu por meio das guerras sucessivas e nos grupos de ação posteriores contra o jugo turco. Hoje conhecem esta canção - se não toda a Creta - pelo menos todas as localidades que tenho visitado. Todos os outros esclarecimentos que li não têm robusta base lógica - sempre na minha opinião - porque apenas nas rebeliões contra o jugo turco, atacavam os rebeldes em larga escala nas planícies à noite a fim de desenraizarem os Turcocretenses que tinham ali estabelecido o regime turco. Os Turcocretenses revelavam aos soldados turcos (genítsaros) as movimentações dos rebeldes, bem como ajudavam o avanço dos soldados turcos com víveres e instruções. A razão é porque era muito difícil o ataque pelos rebeldes às regiões planas, habitadas, uma vez que de dia podiam ser vistos de longe e, até chegarem embaixo, podiam acontecer muitas coisas. Esta canção dá força e concentração ao objetivo e de fato este grupo de elite dos "demônios" - como leio - fez muitas coisas naquela guerra, já que em cada página do livro há também uma referência ao grupo dos "demônios" de Giorgakomárkos.
Admin. - 14/03/2010" 
Vamos agora à réplica do Sr. Evángelos, publicada como comentário ao texto do Sr. Kriarás: 
"Muito frequentemente cantam o poema "Quando as nuvens desaparecerem..." e os que o fazem pensam que entoam uma canção guerreira ou revolucionária. Em Creta pouquíssimos consideram-na hino de combate pela liberdade. A verdade sobre a canção oculta-se pela ignorância ou por razão intencional. Vejamos resumidamente de que se trata. No início do século XVII, na província de Sfakiá de Creta vivia uma grande família, rica e poderosa, a família Skordylis. Na mesma época, no planalto de Omalós havia outra família igualmente poderosa e numerosa, a família Mousoúri, que com certeza dispôs como seu um caminho que denominou "estrada dos Mousoúris". Na aldeia de Karános está preservada até hoje uma igreja que traz uma inscrição de que a construíram as famílias Mousoúri e Veryváki. Entre aquelas famílias desenvolveu-se um antagonismo que acabou em inimizade e finalmente levou a vinganças recíprocas (vendette), coisa habitual em Creta. Houve vítimas também dos dois lados. No Arquivo Histórico de Creta acha-se uma carta do então governador da região Kyrnéïro, para o chefe da família Skordylis, em que aconselha conciliar-se com a família dos Mousoúris e parar com a dilaceração recíproca, e no entanto inutilmente. Naquela época da Venetocracia circularam em Creta as primeiras armas de fogo pessoais, as quais eram consideradas importante aquisição e o seu proprietário as batizava com nomes. Na canção a arma se chama "patróna" e o seu dono obviamente um Skordylis, compôs o poema e canta que espera fevereiro chegar, isto é, o tempo abrir, para descer a Omalós, deslocar-se à estrada dos Mousoúris a fim de continuar a vendetta, as "familiares", como dizem os Cretenses. A canção não tem nada a ver com lutas patrióticas, nem com a liberdade, mas é uma canção de vingança pessoal cheia de ódio e brutalidade, visto que "quer fazer dos bebês crianças a chorarem sem mamães" e "a chorarem à noite pela água - e de manhã cedo por leite". De um lado ético a canção está possuída por furor homicida, sem poupar "mães" e "maridos". Em nenhuma parte mesmo relata algo combativo, bravo, patriótico. Simplesmente goteja ódio. E este poema abominável tomaram os diversos ignorantes e o cantam como hino patriótico da liberdade, enquanto se tratava de uma canção que exige homicídio, não de tiranos, mas de Mousoúris e sobretudo louva o criminoso a assassinar mães! e os bebês sem elas. Todos os que foram indagados sobre a canção, disseram que é da... revolução cretense. Foi-lhes explicada a verdade e foram advertidos para pararem, a fim de isso não constituir pretexto para algum Mousoúri renovar a vendetta à custa deles.
Evángelos - 15/10/2010"
Fonte: revista Toque de Clarim Grego, Boletim nº 66 (janeiro de 2007), página 3.

O próximo comentário, conforme visto, é uma tréplica do Sr. Kriará em resposta à provocação do Sr. Evángelos: 
"O comentário sobre a canção não guerreira postado acima é desmoronado apenas pela multidão que a utiliza. O ódio com que as vendette são executadas pode esperar até mesmo anos, mas raramente estas eram cantadas publicamente, de modo a tomar dimensões. Também aquele que executa uma vendetta está, entre outras coisas, envergonhado e rebaixado, porque a outra família já assassinou alguém da sua, quando também por essa razão nunca ouvi dizer  terem anunciado publicamente a respeito de quando e como aconteceu a vendetta.
A preparação da vingança nunca foi conhecida. Todos conheciam que tal família tem dívida para vingar-se, mas não sabíamos quem e de que forma assumiria esse difícil encargo. Por todos os que conhecem bem o assunto da vendetta, é sabido muito bem que em tal caso - que precede a vingança, a comunicação, - aquele que vinga corre perigo de aniquilar-se muito antes de praticar a sua vingança, visto que o propósito unicamente da vingança levaria a perigo quem assumisse esse difícil encargo. Nas vendette - como todos nós sabemos muito bem - nunca houve carnificina em massa dos adversários e principalmente que a vingança inclua abertamente qualquer um sem exceção. Como a população que não combate. Isso acontecia apenas em guerras. Se vocês lerem a história de Daskalogiánnis, os fatos são horrendos pela fúria da guerra. Antes de escrever o artigo aqui, o articulista levou em consideração todas as versões que circulam na Internet, porque lhe causou impressão, desde os seus anos de criança, que a cantassem em Creta em toda sua manifestação, principalmente as originadas do Sudoeste cretense. Também me causou impressão o ponto de vista sobre a canção não guerreira que eu via tomar cada vez mais difusão e decidi escrever o meu pensamento espontâneo e conhecimento. Lendo a história de Daskalogiánnis e conhecendo, até mesmo de longe, os montes do Sudoeste cretense, vê-se claramente a impossibilidade das operações militares durante o dia, levando muitos deles a basearem-se em ações noturnas para abrir a estrada para Chaniá desde a província de Sfakiá. Ainda mais horrível é que o que relata a canção não aconteceu uma vez, mas repetidamente. Também é relevante que se leve em conta os ataques turcos durante o dia contra a população não-combatente das famílias dos rebeldes, para compreender os ataques noturnos dos rebeldes com tanta fúria.
Admin. - 05/12/2010" 

Cf. in http://kriaras.com/wp/kriaras-12.php

 

III. NOTAS  EXPLICATIVAS



¹  "Troika" é um termo russo que designa um comitê de três membros. Em política, designa uma aliança de três personagens do mesmo nível e poder que se reúnem em um esforço único para a gestão de uma entidade ou Estado ou para completar uma missão. É usado como uma referência de uma cooperação do Banco Central Europeu, do FMI e da Comissão Europeia. Esta troika e seus representantes negociam com os países membros dos programas de crédito na Eurozona. 

²  Chanson des rizes, em francês. Em português, diríamos canção de raiz.

³  Minha tradução, do catalão para o português, do texto intitulado "Quan faci cel estrellat" (Quando se faz céu estrelado). Cf. in http://www.enderrock.cat/noticia/6678/quan/faci/cel/estrellat  Acessado em 02/08/2017.

  Diríamos em português que se trata de uma partícula expletiva ou partícula de realce. Neste caso, o "ε" é um termo da oração considerado desnecessário, podendo ser retirado sem qualquer prejuízo para ela. 

   A alguns quilômetros a leste de Chóra Sfakíon encontra-se Frangokástelo (castelo dos Francos), uma fortaleza construída pelos Venezianos em 1371 para deter os piratas e conquistar Sfakiá, um objetivo que não teve sucesso. O castelo está muito arruinado, mas é uma das vistas mais pitorescas e célebres  de Creta, pela sua localização numa praia de areia, com as imponentes Montanhas Brancas (pron. Lefká Óri em grego) no fundo. Foi ali que em 1771 foi capturado o Daskalogiannis, líder de uma rebelião contra o domínio otomano de Creta. Esse herói, um dos mais célebres revolucionários cretenses, era natural de Anópolis, uma aldeia próxima a Chóra Sfakíon. 

  Sfakiá é uma região geográfica e histórica, e município a Sudoeste da ilha de Creta, correspondente à antiga província de Sfakiá. Faz parte da unidade regional de Chaniá, sendo a capital Chóra Sfakíon (situada à beira do mar da Líbia). 

Localização do municipio de Sfakiá na ilha de Creta

Chóra Sfakíon é célebre como um dos centros da resistência contra as forças de ocupação, tanto veneziana quanto otomana, e mais recentemente, germânica, durante a II Guerra Mundial. É uma região montanhosa e agreste, situada nas Montanhas Brancas, conhecida pelo arraigado espírito de autonomia dos seus habitantes. É considerada um dos poucos locais na Grécia que nunca foi completamente ocupado por qualquer potência estrangeira. As praticamente impenetráveis Montanhas Brancas ao Norte e as praias rochosas e alcantiladas ao Sul ajudaram as localidades vizinhas a combater todos os invasores que se atreveram a conquistar a região. Patrick Leigh Fermor, escritor britânico que teve um papel proeminente no apoio à resistência à ocupação alemã durante a II Guerra Mundial, escreveu sobre os Cretenses serem orgulhosos de Sfakiá por sua resistência à ocupação. Muitos dos casos de revoltas e insurreições em Creta têm o seu início nas montanhas da parte ocidental da ilha, local de guerrilha de combatentes corajosos e bandos de rebeldes.
Sfakiá é famosa pela aspereza da paisagem e pelo espírito guerreiro dos seus habitantes, os sfakiótas. Eles se veem um pouco fora do alcance dos legisladores e cobradores de impostos de Atenas. O roubo e o banditismo eram uma forma de vida comum nas montanhas. Apesar disso, os sfakiótas são também famosos por sua hospitalidade e generosidade para com os que os visitam.
Aí há muitos desfiladeiros ou gargantas de grande beleza natural, principalmente, a de Samariá, classificada como reserva da biosfera e a mais comprida da Europa. Na região vivem alguns animais raros, como abutres, águias e o kri-kri, a cabra selvagem de Creta.

  A palavra "omalós" em grego significa plano, liso e regular, referindo-se a um planalto. A localidade de Omalós está situada no canto nordeste do Planalto de Omalós, 38 km a sul de Chaniá nas Montanhas Brancas. 

  Grande parte da música cretense é improvisada, especialmente em termos de sua letra. Tipicamente, a letra da música instrumental cretense toma a forma de "MANTINÁDA" (pron. mandináda), um poema que é constituído frequentemente de dois versos (ou dístico) de 15 sílabas com rima (ou também 4 hemistíquios que não rimam necessariamente). Constitui um meio de expressão popular instintiva dentro das canções de Creta. A mantináda cretense distingue-se pela expressão particular, a concisão da frase e reflete os sentimentos, o pensamento e a vida do povo cretense. É uma herança cultural de todos os Cretenses e não são propriedade exclusiva de ninguém.



IV.  BIBLIOGRAFIA 




Enderrock.cat: Quan faci el cel estrellat, http://www.enderrock.cat/noticia/6678/quan/faci/cel/estrellat 

WIKIPÉDIA: verbete "Sfakiá" in https://pt.wikipedia.org/wiki/Sfakiá

WIKIPÉDIA: verbete "Omalós" in https://en.wikipedia.org/wiki/Omalos

11 comentários:

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Tenho o prazer de apresentar meu mais recente trabalho no qual exploro alguns elementos que julgo importantes para prestar um merecido tributo ao saudoso cantor e compositor grego NÍKOS KSYLOÚRIS, natural da ilha de Creta.
Normalmente ele é conhecido por ter interpretado canções tradicionais cretenses, conhecidas como "rizítika", canções de raiz ("chansons de rizes", diriam os franceses).
Ele se impôs primeiro nacionalmente, depois internacionalmente, como o grande intérprete de canções tradicionais cretenses. Dentre elas, vale destacar uma que escolhi para prestar essa homenagem, a qual poderá dar uma ideia da autêntica expressão do tipo de peças que iriam envolvê-lo por toda a sua vida. Trata-se da canção QUANDO AS NUVENS DESAPARECEREM ou QUANDO FIZER CÉU ESTRELADO.
Espero ter abordado os principais aspectos musicais, sociais, psicológicos e revolucionários presentes nessa canção que foi datada do ano de 1770 e que, desafiando o tempo, continua sendo cantada em todas as manifestações de massa por toda a Grécia.

Gilberto Mendonça Teles (poeta, crítico literário, agraciado com o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra e com o Prêmio Juca Pato) disse...

Francisco Braga,
Obrigado pela leitura. Gilberto Mendonça Teles.

Frei Joel Postma o.f.m. (compositor sacro franciscano, autor dos hinários litúrgicos e fundador dos Corais Trovadores da Mantiqueira e Trovadores do Planalto) disse...

Bom dia, Rute e Francisco+

Como são importantes as cantadas poesias de protesto do povo contra as ditaduras e opressões de todos os tempos! O cântico de Maria, em Lc. 1,46. é assim, também, um canto de protesto, modelo de todos os cantos a serem cantados, pelos cristãos de todos os tempos, contra os poderosos, colados aos seus tronos! Quando vai acabar o jogo entre gato e rato, na política atual no nosso querido e sofrido país? Estando aqui, na capital cosmopolita da Holanda, deu-me agora uma forte vontade de, se O Eterno e Indizível quiser, compor uma cantata sobre o histórico encontro, em 1219, entre Francisco e o Sultão do Egito, durante a quinta cruzada, quando ambos desejavam a paz, mas os organizadores da cruzada queriam vitória pelas armas e foram terrivelmente derrotados. Em 2019 haverá jubileu deste encontro. Já entrei em contato com alguns confrades da nossa província, para podermos chegar a um texto poético bom, assim como o texto da cantata "O Peregrino de Assis", bem conhecido por vocês.
Resta-me desejar-lhes, de modo franciscano, "Paz e Bem!".
Abraço fraterno do irmão peregrino de Amsterdam,
frei Joel

Gustavo Dourado (jornalista, poeta de cordel e presidente da Academia Taguatinguense de Letras) disse...

Obrigado, amigo e confrade Francisco Braga. Tudo de bom, paz, amor e saúde.

Dr. Mário Pellegrini Cupello (escritor, pesquisador, presidente do Instituto Cultural Visconde do Rio Preto de Valença-RJ, e sócio correspondente do IHG e Academia de Letras de São João del-Rei) disse...

Agradecemos pelo envio.

Abraços, Mario

Prof. Fernando de Oliveira Teixeira (professor universitário, escritor, poeta e presidente da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Caro confrade Braga, bom dia.
Inicialmente, cumprimento-o pelo importante ensaio acerca de Nikos Ksyloúris. Abraço para o amigo e para a Rute. Fernando Teixeira

José R. B. Bechelaine (Acadêmico da Academia Divinopolitana de Letras) disse...

Os países mediterrâneos têm uma cultura belíssima. A música, o canto, a dança são apaixonantes. Obrigado.

Consulado Honorário da Grécia no RJ disse...

Prezado Francisco,

Agradecemos a sua mensagem e a bela homenagem ao cantor e compositor grego Nikos Xylouris.

Atenciosamente,
Selma

Dr. Alaor Barbosa dos Santos (advogado, escritor, cronista, jornalista, ex-consultor legislativo do Senado, membro do IHG do DF e da Academia Goiana de Letras) disse...

Muito bom. Obrigado.
Abraços.

Prof. Cupertino Santos (professor de história aposentado de uma escola municipal em Campinas) disse...

Olá, professor Braga!
Interessante como tantas coisas em certas culturas não tão próximas nos escapam quando desconhecemos certos idiomas. Muito bom esse desvelamento que você faz em relação aos Cretenses, mostrando por exemplo esse artista e essa canção de sentimentos e conteúdo aparentemente assustadores.
Obrigado, Cuper.

Katia Demartino (amiga napolitana e representante de empresas italianas) disse...

Grazie mille
Apprezzo sempre le mail che mi mandi..
Un bacio a Rute